Um novo guia sobre machosfera, lançado pela ONU Mulheres e pelo Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef), oferece orientações para pais e responsáveis conversarem com crianças e adolescentes sobre misoginia online. O material explica como esse conteúdo circula, quais sinais merecem atenção e por que o diálogo deve evitar julgamentos precipitados.

Intitulado “No Mesmo Time: Guia de Conversas para Pais e Responsáveis”, o documento trata a proteção digital como tarefa compartilhada por famílias, escolas e comunidades. A proposta não é fornecer uma lista automática de proibições, mas ajudar adultos e jovens a reconhecer estratégias de manipulação e construir referências de respeito e igualdade.

Guia sobre machosfera explica a circulação do conteúdo

O termo “machosfera” descreve um conjunto de comunidades, perfis, fóruns e produtores de conteúdo que falam sobre masculinidade, mas que podem promover hostilidade, desprezo ou violência contra mulheres e meninas. Esses ambientes não formam um bloco único, e nem todo conteúdo sobre questões masculinas é misógino.

O risco apontado pelas organizações está na combinação de discursos de ressentimento com recomendações algorítmicas. Um adolescente pode começar assistindo a vídeos de motivação, relacionamentos, academia ou autoajuda e, gradualmente, receber materiais que apresentam mulheres como inimigas, normalizam estereótipos ou justificam controle e agressividade.

Por isso, o guia orienta as famílias a olhar menos para uma palavra isolada e mais para o conjunto: mudança persistente de linguagem, desumanização de meninas, admiração por violência, isolamento e repetição de ideias que retiram direitos de um grupo. Um sinal não confirma sozinho que o jovem esteja envolvido com comunidades abusivas.

O documento também chama atenção para expressões e códigos usados nesses espaços. Conhecer o vocabulário pode ajudar o adulto a entender o contexto, mas não deve transformar a conversa em interrogatório nem levar à conclusão de que toda gíria representa adesão a uma ideologia.

Como conversar sem romper a confiança

A recomendação central é escolher um momento tranquilo, demonstrar curiosidade real e fazer perguntas abertas. Em vez de começar com acusações, o responsável pode perguntar o que o jovem pensa sobre determinado vídeo, quem se beneficia daquela mensagem e se as afirmações apresentadas têm evidências.

Conversas sobre igualdade não precisam ocorrer apenas depois de um problema. Comentários em filmes, jogos, músicas e notícias podem abrir espaço para discutir consentimento, respeito, frustração, amizade e formas saudáveis de lidar com rejeição. A repetição de pequenos diálogos tende a ser mais produtiva do que uma única palestra.

O guia propõe adaptar a abordagem à faixa etária e apoiar também as meninas expostas a mensagens misóginas. Crianças menores precisam de explicações simples sobre respeito e segurança. Adolescentes podem participar de análises mais detalhadas sobre influenciadores, modelos de negócio, publicidade e o efeito das recomendações automáticas.

Adultos não precisam dominar todas as plataformas antes de iniciar a conversa. Admitir desconhecimento e explorar uma fonte junto com o jovem pode demonstrar pensamento crítico na prática. O ponto essencial é manter um canal no qual dúvidas e experiências desconfortáveis possam ser relatadas sem medo de humilhação.

Medidas práticas de segurança digital

Além do diálogo, famílias podem revisar em conjunto as configurações de recomendação, privacidade, bloqueio e denúncia das plataformas usadas. É possível deixar de seguir perfis, marcar sugestões como indesejadas, limitar contato de desconhecidos e verificar o histórico de conteúdo quando houver acordo compatível com a idade.

Essas ferramentas ajudam, mas não substituem educação midiática. Conteúdo danoso pode reaparecer em outra rede ou em grupos privados. Ensinar o jovem a verificar autoria, contexto, evidências e intenção comercial oferece proteção mais duradoura do que depender apenas de filtros.

Quando houver ameaça concreta, incentivo à violência, perseguição, compartilhamento de imagens íntimas ou risco imediato, a prioridade é preservar provas, interromper o contato e buscar os canais de denúncia e proteção adequados. Escola, responsáveis legais e autoridades podem precisar ser envolvidos conforme a gravidade.

Referências positivas também fazem parte da prevenção

ONU Mulheres e Unicef defendem que meninos tenham acesso a modelos de masculinidade baseados em cuidado, responsabilidade e respeito. Falar sobre emoções, permitir que peçam ajuda e valorizar relações cooperativas reduz o espaço ocupado por influenciadores que apresentam agressividade como única resposta aceitável.

A prevenção também exige ouvir os desafios reais vividos pelos adolescentes. Solidão, pressão estética, conflitos afetivos e insegurança podem tornar respostas simplistas mais atraentes. Reconhecer esses sentimentos não significa aceitar misoginia, mas permite enfrentar a causa sem abandonar os limites de respeito.

A editoria de Tecnologia do Folha 24 Horas acompanha segurança, plataformas e cidadania digital. O guia completo está disponível gratuitamente e pode ser usado como roteiro para conversas contínuas, não como diagnóstico automático sobre o comportamento de uma criança ou adolescente.