Taiwan reagiu nesta segunda-feira (28) ao debate sobre a memória da Segunda Guerra Mundial depois de o presidente chinês, Xi Jinping, e o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, destacarem a aliança entre os dois países durante a cúpula realizada na semana passada. Segundo reportagem da Reuters publicada pela Yahoo, autoridades taiwanesas avaliam que Pequim tenta ampliar a presença da República Popular da China no relato histórico do conflito, reduzindo o papel desempenhado pela República da China, nome oficial mantido pelo governo instalado na ilha.

A discussão ganhou peso diplomático porque Taiwan teme que uma aproximação política entre Washington e Pequim produza também uma mudança na forma como os Estados Unidos descrevem a relação histórica com a ilha. A Reuters relatou que o governo taiwanês busca transmitir a autoridades americanas que a República da China foi uma aliada dos Estados Unidos e dos demais países aliados durante a guerra. O tema, portanto, mistura memória histórica, disputa de narrativas e o cálculo de segurança do Indo-Pacífico.

Taiwan questiona a versão sobre a Segunda Guerra Mundial

Na leitura apresentada por Pequim, forças guerrilheiras comunistas teriam sido a principal força de combate contra o Japão dentro da China. Já Taipei sustenta que o governo da República da China era a autoridade chinesa reconhecida naquele período e participou do esforço aliado. A divergência não é apenas acadêmica: cada versão procura estabelecer quem representa a continuidade histórica da China e quais governos podem reivindicar o legado diplomático do conflito.

A reportagem da Reuters citou Shen Yu-chung, vice-chefe do Conselho de Assuntos Continentais de Taiwan, dizendo que Xi tenta conduzir a narrativa da guerra para que ela seja liderada pela República Popular da China. O vice-ministro das Relações Exteriores taiwanês, Francois Wu, também afirmou que Pequim procura substituir o papel da República da China. Essas são posições do governo de Taiwan e foram apresentadas como tal, sem que a matéria trate a disputa como uma questão histórica encerrada.

O que a Casa Branca registrou durante a cúpula

A Casa Branca descreveu o encontro de setembro como uma visita de Estado histórica. Em comunicado publicado em 25 de setembro, informou que foi a primeira visita de um presidente chinês à sede do governo americano em mais de uma década e a segunda visita formal de um líder chinês aos Estados Unidos. O texto relatou cerimônia oficial, reuniões bilaterais, jantar de Estado e conversas sobre a relação entre os dois países.

A Reuters informou que, durante o jantar, Xi e Trump destacaram que Estados Unidos e China foram aliados na Segunda Guerra Mundial e lutaram lado a lado. O governo taiwanês considera incompleta essa formulação quando ela não menciona a República da China, enquanto a versão oficial divulgada pela Casa Branca enfatizou a cooperação entre Washington e Pequim. A diferença entre o que foi destacado e o que ficou de fora é o centro da preocupação de Taipei.

Por que a disputa histórica afeta o Indo-Pacífico

O episódio ocorre em um ambiente no qual Taiwan busca apoio internacional para preservar o status quo no estreito que separa a ilha do litoral chinês. Em comunicado de 22 de setembro, o Ministério das Relações Exteriores de Taiwan saudou uma declaração conjunta dos Estados Unidos, Japão e Coreia do Sul que reiterou a importância da paz e da estabilidade no Estreito de Taiwan e se opôs a mudanças unilaterais do status quo.

O mesmo comunicado afirmou que a segurança do estreito está ligada à prosperidade do Indo-Pacífico, à economia global e às cadeias internacionais de suprimentos. A posição ajuda a explicar por que uma disputa sobre a narrativa da Segunda Guerra é acompanhada com atenção: a história é usada como argumento para definir legitimidade, alianças e responsabilidades no presente. Isso não significa que a cúpula tenha produzido uma nova política americana para Taiwan.

Próximos passos exigem leitura cuidadosa

A Reuters registrou que a Casa Branca, o Departamento de Estado e o Escritório de Assuntos de Taiwan da China não responderam aos pedidos de comentário feitos para a reportagem. A matéria também apresentou a crítica do Partido Kuomintang, de oposição em Taiwan, que acusou o governo de Lai Ching-te de invocar a história de 1945 de maneira seletiva para disputar espaço político com Pequim. A existência dessas posições divergentes recomenda separar fatos documentados, declarações oficiais e interpretações partidárias.

O tema deve continuar no radar à medida que Estados Unidos e China mantêm novos canais de diálogo e Taiwan tenta preservar seus parceiros. Na editoria de Mundo, o Folha 24 Horas acompanha os comunicados dos governos e a cobertura de agências internacionais, identificando quando uma informação é confirmada, atribuída a uma autoridade ou ainda depende de esclarecimento. A imagem desta matéria é uma ilustração gerada por IA, sem representar uma reunião real ou a aparência de pessoas específicas.